
Um estudo recente aponta que o custo da alimentação no Brasil subiu 302,6% nos últimos 20 anos, superando em 62% a inflação geral do país. Esse aumento expressivo, que multiplicou o preço da comida por quatro, contrasta com a média de 1,5% de elevação acima da inflação geral observada nos Estados Unidos no mesmo período. O pesquisador responsável pelo estudo destaca que, uma vez que os preços dos alimentos aumentam no Brasil, eles demonstram grande resistência para voltar a cair.
Disparidade entre alimentos saudáveis e ultraprocessados
A pesquisa detalha que a perda do poder de compra afeta de forma mais acentuada os alimentos in natura. Se em 2006 uma pessoa destinava 5% do salário mínimo para comprar alimentos, hoje, com a mesma proporção, ela adquire mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis. O poder de compra para frutas caiu cerca de 31% e para hortaliças e verduras, 26,6% entre 2006 e 2026. Em contrapartida, a compra de refrigerantes aumentou 23,6%, e de embutidos como presunto e mortadela, 69% e 87,2%, respectivamente.
O economista explica que o barateamento dos ultraprocessados está ligado à presença de aditivos industriais, que possuem menor oscilação de preço. Além disso, o uso repetitivo do solo para poucos tipos de alimentos, conhecido como “monotonia”, reduz a resiliência das lavouras. Esses produtos são feitos a partir de poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, que são transformados em milhares de itens com a adição de aditivos químicos. Essa dinâmica direciona as escolhas dos consumidores para produtos menos saudáveis, alterando os padrões de consumo.
Modelo agroexportador e a influência internacional
A inserção internacional do Brasil e seu modelo agroexportador são apontados como fatores cruciais para o aumento persistente dos preços dos alimentos. A prioridade dos produtores em vender para o mercado externo, recebendo em dólares, em detrimento do abastecimento interno, eleva os preços domésticos. Em 2006, o Brasil exportava 24,2 milhões de toneladas de alimentos, número que saltou para 209,4 milhões de toneladas em 2025. Esse volume expressivo reforça a influência do mercado internacional sobre os preços internos.
O direcionamento para a exportação faz com que produtores priorizem itens como soja, milho e cana de açúcar, demandados internacionalmente. A área cultivada com essas commodities expandiu de 41,93 milhões de hectares em 2006 para 79,30 milhões em 2025. Em paralelo, a área dedicada a culturas como arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu de 10,22 milhões de hectares para 6,41 milhões no mesmo período.
Custo de insumos e concentração produtiva
O encarecimento recorrente dos alimentos também é atribuído ao aumento do custo dos insumos agrícolas, como fertilizantes e defensivos. A dependência de insumos e tecnologias controlados por oligopólios de países desenvolvidos cria um ciclo vicioso que impacta os preços para todos, inclusive pequenos produtores. Essa dependência está associada à concentração da cadeia produtiva.
Quatro empresas estrangeiras dominam 56% do mercado global de sementes, 61% de pesticidas e 43% de máquinas agrícolas. Na indústria alimentícia, poucas marcas de grandes empresas detêm fatias significativas do mercado de margarina e massa instantânea, por exemplo.
Inflação invisível e possíveis soluções
O economista alerta para a “inflação invisível”, fenômeno em que produtos mantêm o preço, mas alteram sua qualidade com ingredientes mais baratos, como a substituição de leite por açúcar em sorvetes ou a redução de cacau em chocolates. Essa perda de qualidade, sem alteração de preço, não é captada pelos índices oficiais.
O estudo sugere que o preço da comida reflete escolhas políticas e distributivas. Entre as propostas para reverter essa trajetória estão: diversificação da produção agrícola, incentivo à agricultura familiar, políticas de segurança alimentar, reforma agrária e regulamentação de mercados. A reforma agrária, em particular, é vista como um meio de tornar a terra mais acessível, promover a soberania alimentar e impulsionar o capitalismo ao liberar renda para o consumo de outros bens.
Com informações da Agência Brasil







